< xix, Portugal

Alexandre Herculano (de Carvalho e Araújo) (1810-1877)

Poeta, romancista, historiador, ensaísta, Alexandre Herculano deixou uma obra que, na sua extensão e diversidade, ostenta uma profunda coerência, obedecendo a um programa romântico-liberal que norteou não apenas a obra do autor, mas também a sua vida.
Nascido numa família modesta, estudou Humanidades na Congregação do Oratório, onde se iniciou na leitura meditada da Bíblia, o que viria a marcar a sua mundividência. Impedido por dificuldades económicas e familiares de frequentar a Universidade, preparou-se para ingressar no funcionalismo, frequentando um curso prático de Comércio e estudando Diplomática na Torre do Tombo, onde aprendeu os rudimentos da investigação histórica. Por esta altura, com dezoito anos, manifesta-se a sua vocação literária: aprende francês e alemão, faz leituras de românticos estrangeiros e inicia-se nas tertúlias literárias da Marquesa de Alorna, em quem viria a reconhecer uma das suas mentoras. Em 1831, envolvido numa conspiração contra o regime miguelista, é obrigado a exilar-se, primeiro em Inglaterra (Plymouth) e depois em França (Rennes). No exílio, aperfeiçoa o estudo da história, familiarizando-se com as obras de historiadores como Thierry e Thiers, e lê os que viriam a ser os seus modelos literários: Chateaubriand, Lamennais, Klopstock, Walter Scott. Em 1832, participa no desembarque das tropas liberais no Mindelo e na defesa do Porto, onde é nomeado segundo-bibliotecário e encarregue de organizar os arquivos da Biblioteca. Entre 1834 e 1835, publica importantes artigos de teorização literária na revista Repositório Literário do Porto, posteriormente compilados nos Opúsculos. Em 1836, por discordâncias com o governo setembrista, demite-se do seu cargo de bibliotecário e publica o folheto A Voz do Profeta. Em Lisboa, dirige a mais importante revista literária do Romantismo português, O Panorama , para a qual contribuirá com diversos artigos, narrativas e traduções, nem sempre assinados. Em 1839, aceita o convite de D. Fernando para dirigir as bibliotecas Reais da Ajuda e das Necessidades, prosseguindo os seus trabalhos de investigação histórica, que viriam a concretizar-se nos quatro volumes da História de Portugal, publicados no decurso das duas décadas seguintes. É precisamente por essa altura que se envolve numa polémica com o clero, ao questionar o milagre de Ourique, polémica que daria origem aos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba. Eleito deputado pelo partido Cartista em 1840, demite-se no ano seguinte, desiludido com a actividade parlamentar. Volta à política em 1851, funda o jornal O País, mas logo se desilude com a Regeneração, manifestando o seu desagrado pela concepção meramente material de progresso de Fontes Pereira de Melo. Em 1853, funda o jornal O Português. Em 1855, é nomeado vice-presidente da Academia Real das Ciências e incumbido pelos seus consórcios da recolha dos documentos históricos anteriores ao século XV, tarefa que viria a traduzir-se na publicação dos Portugaliae Monumenta Historica, iniciada em 1856. Em 1856, é um dos fundadores do partido progressista Histórico. Em 1857, ataca a Concordata com a Santa Sé. Em 1858, recusa a cátedra de História no Curso Superior de Letras. Entre 1860 e 1865, envolve-se em nova polémica com o clero, quando, ao participar na redacção do primeiro Código Civil Português, defende o casamento civil. Em 1865, fruto dessas reflexões, saem os Estudos Sobre o Casamento Civil. Em 1867, desgostoso com a morte precoce de D. Pedro V, em quem depositava muitas esperanças, e desiludido com a vida pública, retira-se para a sua quinta em Vale de Lobos (comprada com o produto da venda das suas obras), onde se dedicará quase exclusivamente à vida rural, casando com D. Maria Hermínia Meira, sua namorada da juventude. Apesar deste novo e voluntário exílio, continua a trabalhar nos Portugaliae Monumenta Historica, intervém em 1871 contra o encerramento das Conferências do Casino, orienta em 1872 a publicação do primeiro volume dos Opúsculos e mantém correspondência com várias figuras da vida política e literária. Morre de pneumonia aos sessenta e sete anos, originando manifestações nacionais de luto.