< xix, Portugal

(António Duarte) Gomes Leal (1848-1921)

Gomes Leal foi autor de uma obra heteróclita, que reflecte as tendências dominantes da Geração de 70 e anuncia já o Simbolismo e o Decadentismo finisseculares, para o que contribuiu a diversidade das suas influências literárias, incluindo modelos portugueses do primeiro romantismo, como Garrett e Herculano, e modelos estrangeiros, como Vítor Hugo, Baudelaire, Nerval, Gautier e Heine.
Filho de um modesto funcionário da Alfândega, Gomes Leal começou por trabalhar como escrevente. Depois de uma breve passagem pelo Curso Superior de Letras, depressa se interessou pela boémia literária lisboeta e pelo jornalismo, publicando os primeiros poemas na Gazeta de Portugal (entre 1866 e 1867) e os primeiros folhetins na Revolução de Setembro. Em 1869, o crítico Luciano Cordeiro incluiu-o entre os “poetas novos”, junto a Antero de Quental, Teófilo Braga, Guilherme Braga e Guerra Junqueiro, entre outros, o que contribui para o seu reconhecimento público. Depois de uma vasta colaboração jornalística dispersa por periódicos como República, Diário de Notícias, A Alvorada, Ilustração de Portugal e Brasil ou a revista feminina Boudoir, fundou, em 1872, juntamente com Magalhães Lima, Silva Pinto, Luciano Cordeiro e Guilherme de Azevedo, o jornal satírico O Espectro de Juvenal. Em 1875, publicou o seu primeiro volume de poesias, Claridades do Sul. Em 1881, fundou com Magalhães Lima O Século, jornal onde assegurou a rubrica “Carteira de Mefistófeles”, que publicaria importantes artigos de teorização sobre a poesia moderna. No mesmo ano, publicou o panfleto A Traição, dirigido contra o rei D. Luís e visando a sua passividade perante a possibilidade da venda de Lourenço Marques aos ingleses. Por causa desse texto, onde apelidava o rei de “salafrário”, “assassino e ladrão”, foi preso. Depois da morte da mãe, em 1910, converteu-se ao catolicismo, mas caiu na miséria e no alcoolismo, acabando a viver da caridade alheia e de uma pensão do estado, reivindicada por um grupo de escritores encabeçado por Teixeira de Pascoaes.
Apesar de Gomes Leal ter sido reconhecido essencialmente como poeta social e satírico, a sua “arte compósita”, assim lhe chamou Vitorino Nemésio, assinalou uma renovação na expressão poética portuguesa, abrindo caminho à poesia moderna.

 
 
 
 
 
 
 

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