< xix, Portugal

(José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915)

Um dos vultos mais destacados da Geração de 70, dedicou-se ao folhetim jornalístico, à literatura de viagens e à crítica de arte. Oriundo de uma família abastada da burguesia portuense e filho de um combatente pela causa liberal, conviveu durante a infância com o ambiente rural da casa da avó materna. Na adolescência, tomou contacto com as Viagens na Minha Terra, obra que o fez compreender que “tinha de ser fatalmente um escritor”. Aos dezanove anos, começou a leccionar francês no Colégio da Lapa, dirigido pelo seu pai, onde teria como aluno Eça de Queirós, futuro amigo e companheiro de lides literárias. Durante a década de 60, colaborou em vários periódicos, como a Gazeta Literária do Porto, a Revista Contemporânea e o Jornal do Porto, de que foi redator. Em 1866, publicou o folheto Literatura de Hoje, com que interveio na Questão Coimbrã, não deixando de ser crítico para com Castilho, mas acusando Antero de Quentale Teófilo Braga de desrespeitarem o velho escritor. Como consequência, Antero desafiou e venceu Ramalho em duelo, datando desse episódio o início da amizade entre os dois escritores e a aproximação gradual de Ramalho a esse grupo de novos intelectuais, que se traduziria na frequência do Cenáculo e na adesão às correntes ideológicas que marcaram a geração de 70, como o Positivismo de Comte e o socialismo utópico de Proudhon. Depois de uma viagem a Paris, por ocasião da Exposição Universal de 1867, Ramalho publicou as suas primeiras notas de viagem, Em Paris. Em 1868, mudou-se para Lisboa, onde assumiu o lugar de oficial de secretaria da Academia das Ciências e reencontrou Eça de Queirós. Em 1870, publicaram ambos O Mistério da Estrada de Sintra, e, em 1871, iniciaram a publicação de As Farpas. Após a partida de Eça para Cuba, como cônsul, em 1872, Ramalho tomaria nas mãos a redacção desses folhetins satíricos, cuja publicação até 1888 entremeou com a edição de livros de viagens: Pela Terra Alheia, A Holanda, John Bull e, inspirados pelas viagens em Portugal, Banhos de Caldas e Águas Minerais e As Praias de Portugal. A partir de 1888, Ramalho tomou parte nas reuniões do grupo dos Vencidos da Vida . Em 1895, tornou-se bibliotecário do Palácio da Ajuda. Nos textos escritos perto do fim da vida e já depois de instaurada a República, que serão postumamente reunidos no volume das Últimas Farpas, manifestaria a sua descrença no novo regime político. A variedade dos seus escritos, o diletantismo do seu discurso, a leveza e propriedade do seu estilo, oscilando entre as notações estéticas, as digressões líricas, os apontamentos humorísticos, espelham a fidelidade ao preceito de escrita e de vida enunciado na sua “Autobiografia” (in Costumes e Perfis): “Massar o menos possível que seja o meu semelhante, procurando tornar para os que me cercam a existência mais doce, o mundo mais alegre, a sociedade mais justa, tem sido a regra de toda a minha vida particular. O acaso fez de mim um crítico. Foi um desvio de inclinação a que me conservei fiel. O meu fundo é de poeta lírico.”

 
 
 
 
 
 
 

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